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Internet Underground

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 09 de Dezembro de 2013

O efeito Snowden trouxe à tona, mais uma vez, que há mais coisas armazenadas em discos rígidos do que sonha a nossa vã inocência. Nada de novo. Em Os Capitães e os Reis, a escritora Taylor Caldwell conta a história de um imigrante irlandês pobre que atinge a riqueza, tendo como plano de fundo um grupo pequeno de pessoas que controla o mundo e, por interesses vários, muda sua sede da Europa para os Estados Unidos e, dentre outras coisas, cria o Federal Reserve, a máquina de imprimir dólares sem lastro.

A instituição financeira posta nos doutrina a acreditar na economia da escassez, onde nos falta tudo e só o nosso trabalho é capaz de nos recompensar com o dinheiro necessário para que façamos a devida compensação, da melhor forma possível, adquirindo o que nos falta e contribuindo com a manutenção de governos com o devido quinhão que nos é imposto. Idealmente, seremos todos bem comportados, agiremos de acordo com leis superiores, físicas e metafísicas e, após a nossa morte, seremos recompensados. Nada de novo, tudo muito bonito.

Por quê, então, há alguns loucos que insistem em mostrar que há um grande poder real, na mão de alguns poucos, para os quais o dinheiro nunca falta (eles criam moeda do nada sempre que precisam) e que esse poder é usado, fundamentalmente, para o controle de cada indivíduo? Afinal, a rigor, o conforto e o poder implicam em pessoas servirem a outras. Na pirâmide atual, em bilhões de escravos servindo a um grupo muito pequeno e seleto. Mas é assim desde a antiguidade, desde que deixamos de ser caçadores e coletores, passamos a cultivar e, com a apropriação e divisão de terras propiciamos a fartura para alguns e a escassez para muitos. O livro Ismael, de Daniel Quinn, relata esse aspecto da evolução humana de forma belíssima.

Mas quem lê? Você está lendo esse artigo, pode se interessar pelos livros que citei até aqui. Você olha à sua volta, porém, e percebe a triste realidade. Eu e você somos exceção. Quem já leu (ou lerá) tudo o que o Edward Snowden tornou público? Quem tem tempo para isso? Todo mundo tem que trabalhar, ganhar dinheiro para pagar as contas, alimentar a família, garantir que os filhos tenham a devida educação para garantirem seus empregos e seguirem alimentando o círculo, ou melhor, a pirâmide.

Tem uma coisa que vem acontecendo que pode, finalmente, desestruturar o que foi criado, cuidadosa e inteligentemente, por milênios. A comunicação entre indivíduos está, finalmente, descentralizada e aberta, mesmo que muitos ainda não saibam disso. Há aquela famosa figura que compara a internet a um iceberg. Há uma parte que vemos, que o Google encontra. Há outra, criada e expandida pelos que acreditam que as pessoas são indivíduos capazes, que podem evoluir de forma cooperativa, dividindo o conhecimento e, até afrontando a economia monetária vigente com moedas virtuais. Claro, o sistema posto pinta essa parte invisível do iceberg como um antro de imundície e refúgio para os piores criminosos do mundo. Esse mesmo sistema compara você a um assassino, saqueador de navios, quando você copia um programa produzido por uma grande corporação.

Essa parte invisível, apelidada de Deep Web, permite a privacidade nas comunicações e a anonimidade de indivíduos. Ainda assim, tais indivíduos, para que possam efetivamente criar uma rede de confiança, devem ter alguma forma de vínculos do mundo real entre si. Explicitando, se eu me identifico pelo pseudônimo de Bob Esponja e você como Super Dínamo, em algum momento temos que nos encontrar pessoalmente e, sabendo quem é quem, trocarmos chaves de criptografia e combinarmos formas de comunicação segura. A partir daí, eu posso herdar a confiança de seus amigos e você dos meus, com base na confiança que nós dois estabelecemos.

Claro, como atrás dos pseudônimos sempre há pessoas, e pessoas organizam-se em grupos e há toda essa cultura milenar de construção de poder, a Deep Web não é um mundo cor-de-rosa. Assim como o mundo real também não é. Há verdadeiras guerras no submundo, até entre grupos de mesma origem. Os capitães e os reis tatuaram tão profundamente em nossa mente a economia da escassez que ideias reais de pleno compartilhamento são consideradas revolucionárias e anárquicas demais, mesmo entre os que se intitulam revolucionários e anárquicos. Pior ainda, já há na Deep Web os infiltrados do status quo, coadunando mentes muito jovens e inteligentíssimas, mas ainda maleáveis.

Atenção

Como no mundo real, você não deve sair navegando em águas profundas sem o conhecimento e o equipamento adequado. Entendo, claro, que esse artigo pode despertar a curiosidade de alguns em conhecer a Deep Web, mas não encare essa curiosidade de forma leve. Não abordarei nenhum aspecto técnico aqui (a internet está cheia de artigos assim, todos os bons estão em inglês), mas, como de costume, ofereço alguns links para que você possa se aprofundar no assunto.

Leia mais

Whonix - o sistema operacional anônimo: baseado no Tor e outras ferramentas, é composto de duas imagens de máquina virtual, uma que será a porta de entrada para a Deep Web e outra que será a sua máquina de navegação anônima. É bom você saber que o projeto Tor é desenvolvido, em parte, pela marinha americana e que se você instalar o Flash em seu navegador você detonou com qualquer possibilidade de privacidade.

Tor Browser: se você quiser apenas fazer um passeio pela Deep Web, esta talvez seja uma opção menos trabalhosa, uma bicicleta com rodinhas.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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