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A criatividade da Terra Média

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 30 de Agosto de 2013

Estou escrevendo um novo livro que, ao menos por enquanto, terá o nome "De tartaruga à cobra, programação e arte". Ele é, em grande parte, uma resposta para as diversas pessoas que dizem que gostariam de saber programar mas que não conseguem ter uma ideia clara de como começar. Este é um tema que venho desenvolvendo há bastante tempo, desde que fiz uma palestra (e depois um artigo), em 2006, na qual eu dizia que todos somos programadores.

O título do livro é uma alusão à tartaruga que, na linguagem de programação Logo, ensinamos a desenhar na tela com um conjunto limitado de instruções, e à cobra, mascote da linguagem Python. Mas o livro começa antes, com a programação em papel e nas conversas que temos com outras pessoas, para as quais ensinamos algo através de conjuntos de instruções (como fazer um bolo, conjugar um verbo ou ir de um lugar a outro). Conceitos teóricos de programação e engenharia de software são apresentados, no livro, de forma absolutamente prática e o pensamento intuitivo e criativo do leitor é incentivado, mantendo a ideia de que programar é uma arte e o computador, linguagens de programação, bancos de dados, a web e uma série de outras coisas são os instrumentos do artista. Minha meta é que o livro sirva como uma boa base àqueles que desejam aprender a programar mas que esperam ver resultados práticos logo, resultados que os incentivem à seguir adiante.

Para os que quiserem acompanhar parte deste trabalho em construção, disponibilizei o capítulo oito na web, onde falo como usar a linguagem de programação Scratch para recriar o velho videojogo Pong.

Ainda que os únicos requisitos para a leitura do livro sejam um computador, uma conexão à internet, alguma familiaridade com qualquer editor de textos e navegador web e a vontade de aprender, entendo que quem tem vontade de programar quer ver resultados em aplicações para a web e dispositivos móveis. Os capítulos avançam na construção dessa aprendizagem.

Gosto muito de escrever, mas reconheço que esta é uma arte cheia de desafios. Do outro lado de quem escreve está o leitor e entre escritor e leitor há uma infinidade de meios com inúmeras possibilidades de estética, estilo e ferramentas de tratamento - tanto para a escrita quanto para a leitura. Procuro escrever dentro do framework proposto pelo Vitor Ramil na Estética do Frio, um assunto que abordei nesse link. A arte de programar está diretamente relacionada à arte de escrever, ainda que trabalhe com um conjunto mais limitado de formas sintáticas e tenha um meio comum fixo entre o programador (escritor) e seu usuário (leitor): algum tipo de computador.

Enquanto escrevo o livro enfrento o desafio da escolha de quais linguagens de programação usar, quais bibliotecas, quais exemplos usar. Já escrevi dezenas de páginas que não sobreviveram à minha própria crítica. Sempre volto ao mapa mental do projeto do livro e repito, para mim, que ele não será um tratado de 2.000 páginas que já assustará pelo próprio tamanho, mas uma introdução abrangente que permitirá ao leitor criar seus primeiros programas para a web e dispositivos móveis, atiçando sua vontade de seguir adiante. Isso não é fácil. Não ouso explicar, nesse artigo, todas as escolhas que tomei pois mesmo o espaço desta coluna tem seu limite prático. Apenas para dar um exemplo, por mais que PHP seja a melhor linguagem de programação do mundo, por uma decisão didática (que não explicarei aqui) optei por abordar a linguagem Python.

Qualquer atividade criativa implica na escolha de um subconjunto de ferramentas e ambientes disponíveis para a criação. Quem pinta optará por um painel, uma tela, um muro e usará pincéis e tinta, lápis ou spray. Uma vez dominado um subconjunto de ferramentas e técnicas, partir para outras fica mais fácil. No caso de um ambiente de programação a diversidade de ferramentas e técnicas é tão grande que é difícil mesmo saber por onde começar. Por isso, nesse meu novo livro, tomei essas decisões para o leitor. São decisões informadas mas elas poderiam ter sido, sem nenhum prejuízo, outras. Hoje penso, por exemplo, em seguir além desse livro, tornando-o parte de algum tipo de coleção: a edição PHP, a edição Ruby e assim por diante.

Casualmente, enquanto eu pensava nestas questões de incentivo à criatividade limitando em número e escopo as ferramentas de exploração iniciais, acabei recebendo em um de meus agregadores uma matéria do IDG Connect que fala sobre como Tolkien, o autor de "O senhor dos anéis", é o líder da revolução digital. É interessante pensar nos elementos e mundos fantásticos criados por autores como Tolkien, com os elementos que tinham em sua época. Traduzo livremente, abaixo, um trecho da matéria:

"Tablets, smartphones e interatividade oferecem o ápice da criatividade e, ainda assim, a maioria do conteúdo disponível através desses dispositivos não são compatíveis com seu potencial. Claro que a era digital dá vida à informação, mas também exige muito mais de seus criadores. Esta é a razão pela qual o mundo tecnológico da atualidade persegue Tolkien, uma vez que ele não apenas escreveu histórias: ele produziu experiências totalmente interativas muito antes de existir a tecnologia para apresentá-las. Ele criou mapas, idiomas, canções e poemas. Ele produziu mundos alternativos inéditos, pensados para proporcionar a total imersão do leitor. Ninguém, desde então, conseguiu fazer um trabalho melhor."

Isso deixou-me mais tranquilo. O exercício da criatividade não está, diretamente, relacionado com o volume de ferramentas e técnicas disponíveis para o trabalho. Tolkien, Lovecraft, Roddenberry, todos tinham muito menos ferramentas tecnológicas que as que temos, hoje, disponíveis para nós. Isso também me faz pensar se o volume disponível de ferramentas não pode ser um obstáculo à criatividade. Uma coisa posso dizer, no meu caso, no mínimo, levei muito tempo para decidir quais ferramentas e linguagens eu deveria selecionar para meu livro. Esse tempo teria sido melhor aproveitado se eu não tivesse que consumi-lo no processo de escolha? Ou esse tempo serviu como reflexão e estímulo à minha criatividade? Não tenho essa resposta.

Postscript

Enquanto eu escrevia esse artigo meu celular Samsung S2 sofreu com a morte súbita tão documentada na web, um problema para o qual o fabricante ainda não deu uma resposta satisfatória. Eu não entendo a razão pela qual uma empresa oferece meios de contato oficiais nas redes sociais e, ainda assim, não responde aos questionamentos de seus clientes através destes meios. Mais sobre isso aqui.

Beijo pra minha prima Joana Brod, que emprestou-me seu Nokia X2-01 para que eu possa continuar online em trânsito!

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Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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