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Cidades Inteligentes e Cidadãos Participantes

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 05 de Setembro de 2012

Em meados dos anos 1990, no meio de uma série de conversas que deram origem à primeira presença da dupla Kleiton & Kledir na internet, eu e os manos Ramil divagávamos sobre uma cidade gaúcha sem fronteiras, aberta a todos os interessados nos modos e jeitos desse nosso amado Rio Grande do Sul, uma Internetchê. Era uma forma, talvez meio bairrista ou saudosista, de preservação de uma identidade muito - ao menos até então - atrelada a uma determinada geografia. Seria uma espécie de CTG (Centro de Tradições Gaúchas) cravado no mundo virtual.

Mais ou menos na mesma época um primo meu, o Gustavo Jantsch, criou uma lista de emails onde juntavam-se os arroiomeenses desterrados, a Middlecreek. A lista permitia que os vínculos reais com a cidade de Arroio do Meio expandissem para o mundo virtual, sempre com a articulação de encontros presenciais no saudoso Kalabouço (1).

A cidade de Bruxelas, na Bélgica, envolve seus turistas em uma experiência interativa ao permitir que pontos turísticos sejam clicados e transportados entre o mundo real e o virtual. Usando a tecnologia NFC (Near Field Communication), os turistas aproximam seus smartphones de quadros, estátuas, pontos de ônibus, estações de trem e recebem, imediatamente, mais informações sobre o local onde estão, promoções de lojas nas vizinhanças, descontos em restaurantes e dicas sobre mais lugares interessantes a serem visitados. Ao final da visita, os turistas carregam consigo o roteiro de todos os lugares pelos quais passaram. Um verdadeiro álbum de viagem.

Uma menina de 13 anos, Isadora Farber, da cidade de Florianópolis, expôs os problemas de sua escola ao mundo através do Facebook e, com mais de 200 mil seguidores, começa a ver soluções e seu exemplo começa a ser replicado.

Uma candidata à prefeita da cidade de Lajeado, ao invés de distribuir santinhos e poluir a cidade, espalhou latas de lixo em locais estratégicos, com sua foto e o slogan Você faz parte, divulgando a ideia, digna de ser copiada, nas redes sociais.

Cidades, locais de nascimento, geografias pelas quais nos apaixonamos seguirão existindo. Nós somos humanos e precisamos de um lugar para ser, estar, existir. Um local com o qual criamos laços afetivos reais, mesmo que nem sempre explicáveis. A tecnologia nos permite, além de melhorar nosso canto no mundo, expandi-lo. Ela nos permite que o carreguemos, ao menos parcialmente, conosco. Na época em que morei em Brasília, quando a saudade mais apertava, eu ligava o condicionador de ar no frio máximo e ficava ouvindo a Ipanema ou a Independente, até pedia músicas e era atendido. Lia o Informativo do Vale.

A forma como define-se uma Cidade Inteligente, com o enfoque tecnológico dado atualmente ao termo, deve levar em conta que é a participação cidadã que já está, efetivamente, construindo-a de maneira orgânica e evolutiva com os meios que lhe são dados. Os futuros gestores municipais (especialmente com as eleições chegando) devem pensar em usar a tecnologia para propiciar a participação cada vez maior dos cidadãos em seus governos - e não apenas os cidadãos residentes na cidade, mas aqueles que a visitam, aqueles que estão longe mas mantém com ela uma relação afetiva, aqueles que poderão vir a tornar-se seus habitantes, aqueles que conhecem as idiossincrasias locais e aqueles que sequer falam a língua ou os dialetos locais.

Em um dia, não muito distante, todos os cidadãos terão acesso à internet. Já existem, hoje, softwares livres que permitem que os cidadãos falem direto com os gestores de suas cidades de uma forma ao mesmo tempo fácil e estruturada, garantindo sua efetiva participação na gestão pública. Todas as cidades do mundo deveriam ter um portal de comunicação com seus cidadãos baseado no Alaveteli.

Conheça também o Portal Brasileiro de Dados Abertos, o Portal da Transparência do Governo Federal e o portal e softwares disponibilizados pela Open Knowledge Foundation.

Um abração para os amigos Alexandre Gomes, Augusto Herrmann, Christian Moryah, Nitai Silva, Pedro Markun e Teofilo Baiocco.

(1) Povo de Middlecreek! Encontrei o Auri no Tombado e ele disse estar pensando em voltar à vida de bodegueiro, fazendo ressurgir o Kalabouço ali onde era a Taverna do Tio Oli!

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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