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Células-tronco para todos

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 12 de Março de 2008

Não tenho uma opinião formada sobre o uso de células-tronco de embriões humanos. Venho de uma família de formação católica e humanista, o que me faz levar em conta os limites da vida. Onde e quando começa e termina uma vida humana? Qual vida é realmente digna de ser vivida e o que define tal dignidade?

Ao mesmo tempo em que me sensibilizo, muito, ao ver pessoas desprovidas de uma simples mobilidade que a grande maioria de nós temos, e que elas têm a possibilidade de uma vida melhor a partir de uma cura que use células tronco como base, não deixo de pensar no fator econômico disso tudo. Afinal, qual será o alcance de um eventual tratamento para, por exemplo, tetraplégicos? Conseguiremos ter tetraplégicos atendidos pelo SUS?

É claro que simplifiquei a questão. Pesquisas com células-tronco não beneficiarão apenas tetraplégicos. Mas conseguimos, hoje, atender a todos que recorrem à saúde pública com doenças para as quais as curas já foram descobertas? O investimento em pesquisas com células-tronco não seria melhor direcionado para efetivas curas de doenças que matam uma parte muito mais significativa da população carente? Não sei.

Indo do lado econômico para o ético, a discussão é muito próxima à questão do aborto. Quando a vida começa? Se é no momento em que o óvulo é fecundado pelo espermatozóide, um embrião que será usado para pesquisas já é uma vida, que nasce condenada à morte. É um aborto pré-programado. Mas quando é que uma vida termina? Podemos nos dar ao luxo de decretar que a vida de alguém, que já viveu anos e anos fora de um tubo de ensaio, esteja condenada ao fim porque não nos demos ao luxo, sequer, de desenvolver uma pesquisa em cima do único tratamento possível para esse alguém, seja quem for?

Na prática, discussões éticas não param nenhuma pesquisa, ainda que possam atrasá-la. É bem possível que, caso não o façamos hoje, em um futuro próximo estejamos comendo a carne de animais clonados com o mesmo desconhecimento (ou passividade) com o qual comemos alimentos transgênicos. Temos, sim, que ter, eternamente, a consciência de que qualquer pesquisa e seus resultados não possam, de forma alguma, ser segregantes.

Quem assistiu ao filme A Ilha pôde ver um cenário de futuro onde os que detinham o poder econômico encomendavam "clones" que serviam como repositórios vivos de órgãos que serviam de estepe para o original. Nesse futuro imaginado, quem só tinha o SUS não tinha condições de comprar um clone.

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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