O Presidente Juscelino Kubitschek e o Software Livre

Por Rubens Queiroz de Almeida

Data de Publicação: 25 de Fevereiro de 2009

Eu nasci em 1960, próximo ao fim do governo do Presidente Juscelino Kubitschek. Nos primeiros anos de minha vida, sempre ouvia meus pais contarem boas coisas do Presidente Juscelino, como a vida era boa e como um sentimento de bem estar pairava no ar. Foram os Anos Dourados.

Como sempre gostei de ler, assim que tive oportunidade, comecei a ler os livros que relatavam os fatos de seu governo e de sua vida. Isto aconteceu já bem mais tarde, ao encontrar diversos livros sobre este assunto na biblioteca central da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde fiz meu curso de Engenharia Elétrica.

A maioria dos livros que li nesta época foram de autoria do próprio JK. O primeiro deles foi o livro Porque Construí Brasília, que relata diversos fatos de seu governo e a luta que foi a construção de Brasília, enfrentando uma oposição forte, ilógica e irracional.

Ao assumir o governo, JK já possuía todas as suas metas definidas. Eram 31 metas, divididas em 5 setores da economia brasileira: energia, transporte, indústrias de base, alimentação e educação. Brasília era a 31ª meta, a meta síntese.

O Brasil, à época do governo JK, estava praticamente todo por se fazer. O interior do país era uma imensidão vazia. Brasília, ao ser posicionada no centro do país, exigiu a ligação da nova capital, por estradas, a todos os cantos do país. A odisséia da construção de todas estas estradas está bem documentada no livro.

JK tinha plena consciência da imensidão da tarefa que se havia imposto. Durante todo o seu mandato de cinco anos, viajou ao exterior apenas cinco vezes. Havia muito a ser feito. Ele tinha consciência de que se não completasse suas obras em seu mandato, possivelmente elas seriam abandonadas por seu sucessor, no estilo de política que era comum àquela época. Durante a construção de Brasília ele viajava três vezes por semana ao canteiro de obras. Saía do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, às 8h da noite, viajava por 4 horas, e à meia-noite começava sua inspeção das obras. Às 4 horas da manhã, embarcava novamente em seu avião. No dia seguinte, pontualmente às 8h da manhã, já estava preparado para um novo dia. A duração das viagens foi encurtada com a aquisição de um avião mais moderno. Foram mais de 200 viagens para acompanhar o dia a dia da construção da cidade.

A história do Presidente JK está hoje, felizmente, fartamente documentada em diversos livros de altíssima qualidade (ver bibliografia). Mas qual a relação do Presidente JK com o software livre? Computadores nem existiam naquele tempo.

A história do governo JK sempre foi ligada à autonomia, ao desenvolvimento, ao orgulho nacional. Naquele tempo, como ainda hoje, as nações desenvolvidas se esforçavam em disseminar uma mensagem afirmando que o Brasil era uma nação com vocação para o fornecimento de matérias primas. Ao tomarem conhecimento de que o JK pretendia instalar no Brasil uma fábrica de automóveis, diziam que isto não seria possível, pois não se poderia fundir um motor em um clima tropical como o nosso. A história da indústria automobilística no Brasil é apenas uma, entre as dezenas de desafios requeridos para construir Brasília e começar a tirar o Brasil do atraso. Em todos os desafios, o Presidente JK confiava na capacidade de seu povo e ele estava sempre certo. A capital foi inaugurada e a maioria de suas metas de governo foram atingidas.

Seu mandato foi marcado por grande calmaria política, sofrendo apenas dois movimentos de contestação por receio das supostas tendências esquerdistas do presidente: as revoltas militares de Jacareacanga, em fevereiro de 1956 e de Aragarças, em dezembro de 1959. As duas contaram com pequeno número de insatisfeitos, sendo ambas reprimidas pelas Forças Armadas. Com o fim das revoltas, Juscelino concedeu "anistia ampla e irrestrita" a todos os envolvidos nos acontecimentos.

Em suma, JK tentou antes de tudo, mostrar que o destino do Brasil estava em nossas mãos. Que éramos capazes de fazer o impossível, como o afirma o subtítulo do livro de Cláudio Bojunga, chamado JK - O Artista do Impossível.

Da mesma forma que o Presidente JK trabalhou para afirmar a grandeza do Brasil e reafirmar a auto-estima de nosso povo, o software livre prega a autonomia, o compartilhamento, uma vida melhor em sociedade. Em uma sociedade como a nossa, em que a tecnologia domina praticamente todos os seus aspectos, o software livre, por sua mensagem de solidariedade, nos indica o melhor caminho.

Os cinco anos de JK foram inesquecíveis, não apenas pelo que fez, como um Presidente dedicado de corpo e alma ao país, mas por ter nos feito acreditar em nosso grande potencial.

Bibliografia

  • O livro Porque construí Brasilia, pode ser adquirido diretamente na gráfica do Senado, por R$ 20,00.

  • A melhor referência sobre a vida de JK é o livro JK - O Artista do Impossível, de autoria de Cláudio Bojunga. O livro tem 798 páginas, mas apesar do tamanho, é uma leitura leve e fácil. Na minha opinião, esta é a obra definitiva sobre a vida de JK. Imperdível.

  • O livro O Juscelino Kubitschek de Minhas Recordações, de autoria de Josué Montello, traz uma visão mais intimista do presidente JK. Josué Montello trabalhou para o governo e foi um dos escritores que trabalhou na elaboração do plano de metas do governo.

  • Brasília Kubitschek de Oliveira, de autoria de Ronaldo Costa Couto, é outra obra sobre o Presidente JK, com mais atenção à construção de Brasília.

  • JK - O Reencontro com Brasília, de autoria de Vera Brandi, é um relato pessoal sobre os últimos e tristes anos do Presidente JK. A autora era amiga pessoal de JK.

  • O Soldado Absoluto, de autoria de Wagner William, conta a história do Marechal Henrique Lott. Honestíssimo, foi o personagem que garantiu a legalidade, entregando o governo ao Presidente JK. Para isto teve que dar um golpe militar, para assegurar a transição à quem eleito democraticamente pela população.

Referências

O que fez de Juscelino o JK?

Título: O QUE FEZ DE JUSCELINO O JK?
Autor: ELIO GASPARI
Fonte: O Globo, 04/01/2006, Opinião, p. 7

No dia 8 de maio de 1961 o escritor Alceu de Amoroso Lima escreveu mais uma carta a sua filha. Comentava a popularidade de Juscelino Kubitschek, que deixara a Presidência da República humilhado pela vitória de um candidato que tinha a vassoura como símbolo e programa:

O brasileiro gosta é da dolce vita e o JK faz sucesso na distribuição de¿ narcóticos políticos, que adormecem o povo na doce ilusão da "prosperidade". Ao passo que Jânio Quadros é um moralista. (...) O brasileiro é desperdiçado por natureza, de modo que o governante ideal para ele é um JK, que joga dinheiro pela janela, porque o imprime ilimitadamente na cozinha..."

Mal sabia doutor Alceu o tamanho da fraude que o andar de cima empacotara num demagogo desequilibrado. Desde a noite de ontem as bruxarias de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira saciam a curiosidade nacional, oferecendo ficção de primeira qualidade numa época em que a realidade é de quinta. O que fez Juscelino se transformar no JK da saudade dos brasileiros?

O progresso? O Brasil de JK cresceu a 8,5% ao ano, o do general Emílio Médici cresceu a 11%. O sorriso? Fernando Collor também ria. A proscrição e o exílio? Carlos Lacerda, seu pior inimigo, também foi proscrito, até mesmo preso. A elegância cosmopolita, como o chapéu gelot que usou ao receber o presidente americano Dwight Eisenhower? Não sabia falar inglês.

JK jogou menos dinheiro pela janela construindo Brasília do que seus sucessores contratando a dívida externa, o acordo nuclear com a Alemanha e o populismo cambial do final dos anos 90. Talvez JK tivesse feito todas essas coisas. Afinal, apoiou o acordo nuclear e tinha apetite por dívidas e dólar barato.

O que fez de Juscelino Kubitschek o JK de 2006 foi a sua capacidade de ser um pouco de cada brasileiro. Ficou parecido com o sonho dos "desperdiçados". Não falava bem do seu governo, muito menos de si. Passou pela vida pública como se não tivesse inimigos. Odiavam-no, mas não odiava. Batia sem deixar marcas e não levava suas raivas para a agenda do país. Era como se não tivesse contas a acertar. Dirigia sem retrovisor. O JK de 2006 tem o tamanho de seus sentimentos. Vivia de grandiosidades e teve grandes amigos, grandes amores e grandes projetos.

Esse JK não é o de 1960. É criação recente, nostálgica e invencível. Nasceu no coração dos brasileiros entre a tarde de 22 de agosto de 1976, quando o passageiro do banco de trás de um Opala destroçado no quilômetro 165 da Via Dutra foi identificado como Juscelino Kubitschek de Oliveira, e as últimas horas do dia seguinte, quando foi sepultado em Brasília, sob as luzes dos holofotes do Corpo de Bombeiros, ao som da multidão. Estima-se que 350 mil pessoas foram às ruas acompanhando seu caixão. Era a maior manifestação pública desde a edição do AI-5, em dezembro de 1968, e só seria superada em 1984, com os comícios das Diretas. Não se gritava "Abaixo a ditadura". Cantava-se:

Como pode
O peixe vivo
Viver fora
Da água fria?
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia?

Desde então, todos os presidentes brasileiros querem ser JK quando crescerem. Um dia algum talvez consiga, desde que aprenda uma coisa simples: Juscelino Kubitschek jamais disse uma má palavra dos brasileiros ou do Brasil. Foi um visionário que acreditou nos dois. Desdenhava infalibilidades e costumava repetir: "Não tenho compromisso com o erro".

ELIO GASPARI é jornalista.

Fonte: Biblioteca Digital do Senado Federal

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